Texto: Refém de mim


É só mais uma noite, eu ficarei bem. Não quero mais sentir isso. Dor no peito. Tomo um remédio. Outro dia. Outro remédio. Não sinto nada, mas sinto raiva. Não tomo mais esse remédio. O vazio volta. A dor volta. Mais um remédio. Me sinto bem e comemoro. Mas é só dormir, que no outro dia eu não sei o que vai acontecer. A ansiedade vai me trazer o que de novo na vida? Dor no estomago? Já tive. Falta de ar e dor no peito a ponto de achar que ia morrer? Já tive. Dores musculares e dores de cabeça? Check. Engordar? Check. Cabelo caindo e coceira ? Check. Me pergunto no que mais a ansiedade pode me atacar, e como ela pode acabar ainda mais comigo.


Ultimamente ela tem me levado tudo. A vontade de sair de cama. De fazer minhas coisas. De reagir. E eu quero falar que tá tudo bem. E mesmo não estando eu falo. Eu minto. Eu sorrio. Eu aguento. Porque na verdade, a verdade que ninguém fala é que ninguém liga se você está bem ou não. E deixa eu te dizer mais uma coisa, as pessoas não querem uma pessoa assim por perto. É muito mais fácil se afastar. Sei disso. Porque já perdi as contas de quantas pessoas se afastaram porque eu não quis sair. Porque combinei algo e dei uma desculpa porque a ansiedade me fez chorar e não querer sair da cama. A ansiedade me tirou possíveis amizades. Relacionamentos e me deixou com a imagem que eu menos queria: Fraqueza.


Sim, a insegurança e a ansiedade andam de mãos dadas e fazem de mim refém. E como escapar dessa armadilha? As madrugadas são infinitas e eu, definitivamente estou mais cansada mentalmente do que já estive em anos. Eu tento tanto. Não deixar esses sentimentos e pensamentos me dominarem. Eles tiram o melhor de mim. 


Tem umas 5 caixas de remédios na minha cabeceira. Um pra cada sintoma. E me sinto refém deles. Refém da ansiedade. Refém dos remédios. Refém da minha cabeça que devia estar comigo mas luta contra mim. Não existe inimiga pior que eu. Tudo de ruim que você já pensou em me dizer, minha mente já disse. Já repetiu várias vezes e me fez chorar dezenas de milhares de vezes. 


Eu escondo muita coisa. Porque não dá pra mostrar inteiramente tudo. E eu tenho tanto medo de você ser mais que vai sair pela porta. Mesmo você tendo prometido. Acontece, que outras pessoas também  prometeram, e eu me vi sozinha todas as vezes. Sobre pressão me sinto o tempo inteiro. Tento viver um dia de cada vez . Mas, minha mente sempre está além imaginando diversos cenários catastróficos. Imaginando que tudo vai dar errado e eu vou pensar " tá vendo? eu já sabia.". Eu sei, é deprimente. Ninguém quer ficar perto de uma pessoa assim. Eu aprendi. Por isso eu me escondo. Por isso na maioria das vezes eu não falo. Só que na maior parte do tempo, eu só queria gritar. Outro dia, gritei e berrei no travesseiro. Muito. Muito mesmo. Precisava que aquela raiva saísse, e ela saiu. Mas não completamente.


A verdade é que eu não sei o que estou fazendo. Não sei pra onde estou indo. E estou morrendo de medo de tudo dar errado, mas estou fazendo mesmo assim. Porque não há outro caminho.  Ou a gente continua ou a gente se rende. E se nos rendermos, o caminho não será bonito.


Tomei anestesia outro dia e durante a sedação pela primeira vez, vi coisas que ainda flutuam na minha mente. A caverna vermelha e vivída. Eu, no chão, toda machucada e manchada me arrastando sobre uma lama que me puxava pra tras e quando eu olhava pra frente via uma luz. E eu continuava me forçando a chegar até ela. Como se fosse minha salvação.  Como se eu finalmente pudesse dizer que estou feliz. E em paz. E eu espero tanto por esse dia que ne sei como vou reagir se ele um dia chegar, porque pra mim a ansiedade me fez ver o mundo cinza. E eu espero que volte a ver a cor de volta antes que ela me consuma.

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