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Conto: Presa a algo

- Parece que você não consegue se desprender.

- Do que ?

- Do que houve.

- Não quero falar sobre isso.

- Tá bom. Mas, não posso te tirar disso. Só você pode.

-Isso ainda me afeta.

- Eu sei. Eu percebo isso.

- Eu achei que já teria superado. Mas, está levando mais tempo do que deveria.

- Queria poder te fazer esquecer disso tudo. 

- Eu sei.

- Parece que vira e mexe o passado volta pra te assombrar e queria te ver consigo mesma.

- Comigo mesma?

- Sim, sem essas coisas te afetando.

- Eu estou tentando.

- Observando você percebo que continua muito ligada ao que aconteceu. Que aquela pessoa ainda mexe com você. Isso me preocupa.

- Não precisa se preocupar comigo.

- Gosto de você. Obviamente, me preocupo.

- O que me impressiona é você notar as coisas tão fácil em mim.

- Eu noto muitas coisas em você. No que você sente. Porque tudo em você me importa. Tudo que é em relação a você.

- E o que você está percebendo em mim?

- Eu sinto e vejo medo. Medo de se magoar. de me magoar. 

- Eu tenho medo.

- Eu sei, mas não precisa. Você é encantadora, apaixonante e especial.

- Tenho vontade de te abraçar quando você diz que sou especial.

- Porque você é. Me importo com cada sentimento seu. Suas tristezas, suas angústias e tudo mais.

-  Queria que as coisas não fossem assim. Queria que nada tivesse acontecido. Que ele não tivesse me afetado tanto assim.

- Eu também queria. Queria ter uma oportunidade de te fazer minha. Só minha.

- Achei que a essa altura eu já teria superado sabe?

- Pelo que observo, você se machucou bastante.

- Queria não ter sido tão ingênua.

- Não fique se culpando. Você precisa passar essa página.

- É que tudo isso, é muito cansativo.

- Tudo isso o que?

-  Conhecer uma pessoa. Ultimamente tem sido muito difícil. E ai quando você conhece alguém e acha que vai dar certo, acaba sendo a mesma coisa de sempre. Cansativo demais pro emocional.

- É porque você não encontrou a pessoa certa ainda.

- Eu nem sei mais se essa pessoa existe mesmo.

Uma conversa entre a mente e o coração

Mente: Precisamos ter uma conversa séria.
Coração: Já sei o que você vai falar. Você repete isso toda hora.
Mente: E adianta alguma coisa? Voltamos pro mesmo caminho.
Coração: É bom sentir as coisas.
Mente: Concordo. Mas quando se pode evitar é idiotice.
Coração: Idiotice é não tentar.
Mente: Você não acha que a menina já sofreu demais? Se você não se envolvesse tanto talvez ela não precisasse sentir tanta dor.
Coração: Os momentos precisam ser sentidos. Vivenciados como se fosse os últimos, mesmo que depois não dê certo.
Mente: Não dá pra argumentar com você. Está ai, cheio de cicatrizes enquanto toda vez que vem um idiota tentar conquistar ela você se deixa levar fácil.
Coração: Não é bem sim.
Mente: É sim. Dá um jeito nisso. Crie mais barreiras protetoras, fique longe até ter certeza. Faça o que puder mas não a faça derrubar mais lágrimas.
Coração: Há pessoas que penetram qualquer barreira que eu coloque. Não sou eu que causo as lágrimas.


Mente: Se não é você, quem é? É você que está esmagado dentro do peito dela causando dor.
Coração: Esqueceu seu papel nisso?
Mente: E qual é?
Coração: Sou eu que me envolvo, que absorvo os sentimentos mas é você que a ajuda a decidir. É você que guarda as lembranças e as faz voltar nos momentos importunos.
Mente: É minha função ajudá-la a tomar a melhor decisão, mas não posso apagar o que ela vivenciou.
Coração: Exatamente. Não dá pra ser totalmente racional nessa conversa, e nem totalmente emocional. Precisamos pensar de um modo igual. Se não houvessem as cicatrizes, e as lágrimas no travesseiro como ela entenderia?
Mente: Eu tentei avisar várias vezes.
Coração: E eu não ouvi, e nem ela ouviu. Porque nós dois queríamos dar uma chance. Queríamos uma chance de poder acreditar que ia dar certo.
Mente: Mas não deu.
Coração: Não, não deu. Tudo que me dá força é a esperança de que ela vá encontrar alguém que cuide dessas cicatrizes e entenda tudo que ela já passou.
Mente: Eu duvido disso.
Coração: Ai que você está errada. A esperança é a única coisa que resta. Se ainda tiver um motivo pra acreditar, vai dar certo.

Conto: Um outro tipo de amor


Acordei com a maior preguiça do mundo. Bati no relógio umas mil vezes, mas ele insistia em despertar. Me revirei pela cama durante vários minutos enquanto resmungava alguma coisa. Hoje bem que podia ser feriado, pensei comigo. Hesitante,levantei pensando em me deitar novamente. Tinha prometido pra minha mãe levar minha irmã para aula de natação. Já tinha me arrependido dessa promessa. Levanto reunindo todas as forças do meu corpo e visto alguma coisa simples. Passo alguma coisa no rosto para não ficar com aquela cara de que acabei de acordar, e arrumo meu cabelo no espelho. Minha irmã murmura algo de que temos que nos apressar e saímos. Chegamos rápido a academia e ela entra com pressa no vestiário, era apenas 1 hora e meia de aula. Eu poderia ir pra casa ou esperar aqui até terminar. Em casa, a louça me esperava na pia. Não. Acho que esperar aqui é uma boa ideia. Vejo minha irmã sair do vestiário e ir até a piscina. Há um  vidro separando a piscina do vestiário, onde as pessoas podem olhar a aula. Vejo minha irmã entrar na piscina e olho pra frente. Lá está ele, engulo em seco. Como ele é lindo. E atraente. Por um momento não consigo pensar enquanto ele me nota e sorri disfarçadamente. Por um momento me lembro em como estou feia. Droga!Isso era errado. Ele era professor da minha irmã.

Um professor gatinho. Mas ainda sim um professor.Respiro fundo enquanto sinto meu coração acelerar. Por um momento me esqueci dele. Sempre que eu vinha trazer minha irmã era a mesma coisa. Ele me encarava por longos minutos, e quando minha mãe levava minha irmã ele sempre perguntava por mim. Encosto um pouco mais perto do vidro fingindo tentar enxergar minha irmã. Ele está falando algo para ela e para os alunos. Minha irmã me vê e sorri, sorrio de volta e quando direciono meu olhar para ele, ele ainda me observa. Ele dá um pequeno sorriso e passa a mão sobre o cabelo. Cara, como resistir? Ele fala mais algumas coisas e o vejo caminhando ele sai pela saída da piscina e vem em direção a mim. Sinto minhas pernas virarem gelatina.
- Então, você sumiu por um tempo, andei perguntando de você pra sua irmã.
Eu mal podia crer que ele estava mesmo falando comigo, meu coração batia loucamente sabe-se lá por qual motivo.
- É sim- abaixei a cabeça envergonhada- Andei um pouco ocupada.
Ele também sorri e abaixa a cabeça:
- Já pensou em fazer aulas de natação?
Engulo em seco:
- Na verdade sim, mas no momento não.
Ele dá uma risada curta e se aproxima um pouco de mim:
- Eu poderia te ensinar..sabe..ser seu professor.
Nossa que voz era aquela? E aquele olhos? Opa, o que estava acontecendo.? Se controla, se controla!
- É quem sabe um dia- eu digo
Ele tem os braços cruzados sobre o peito, enquanto me observa admirado:
- Se eu te fizesse um convite, seria muito atrevimento?
Ai meu Deus, entro em desespero na minha mente! Calma, calma!
- Claro que não, pode falar- sorrio tentando parecer natural.
- Vem fazer uma aula comigo hoje a noite, a piscina fica vazia, eu sempre fico aqui até tarde e eu posso te ensinar com calma. Sei que isso pode parecer estranho, mas nós poderíamos conversar também. Acho que vamos nos dar bem.

Respiro fundo mas parece não estar funcionando. Era isso mesmo? Ele estava me convidando pra conversar com ele a noite? Na piscina? Senti minha boca ficar seca, e nada saiu por alguns segundos. Eu tinha algo para a noite? Não. Mas teria que dar alguma desculpa para sair de casa. Eu podia fazer isso? Claro que sim. Era o que eu queria. O que eu mais queria naquele momento

- Claro, pode ser legal- respondi calmamente
- Que horas te encontro aqui?
-Umas 9 horas, esse horário estará tudo tranquilo, quando chegar só bater no portão que eu abrirei pra você.
- Entendi- sorri, tentando não corar.
Ele sorri mais um pouco e de repente beija meu rosto, enquanto ainda me observa:
- Te espero mais tarde.
Então ele sai de volta em direção a piscina, passo a mão na bochecha que ele acabou de beijar. Isso aconteceu mesmo? Ainda olho pelo vidro, enquanto ele sorri e eu nem hesito em sorrir de volta. Eu mal podia esperar pela noite. Dane-se se era certo ou errado. A minha única certeza era estar com ele aquela noite.
Parte 2 em breve

Conto: Cicatrizes que ninguém vê


Está vindo uma dor de cabeça. Bem de dentro. Fico me perguntando o que fazer. Me sinto estranha. Me sinto completamente inútil. Não me encaixo em nenhuma parte desse mundo. Só consigo pensar no que há de errado comigo. As pessoas me isolam, me chamam de nomes que eu não entendo. Nomes que machucam e que me fazem chorar. Elas me criticam por ser do meu jeito. Dizem palavras afiadas. Como facas. Que te cortam mais fundo do que se pode imaginar. Não tenho muito amigos. Não tenho muitas pessoas que compreendam e nem pessoas para qual eu possa contar isso. Só queria que as coisas fossem um pouco normal pra variar. Acontece que não vejo a hora de isso acabar e melhorar. Mas será que vai melhorar? Será que alguém vai me olhar como uma pessoa normal? Só queria ficar em paz. Nada mais do que isso. Mas porque eles jogam essas palavras torturantes em cima de mim? Chego em casa e quase todos os dias eu choro. Me sinto a pior criatura do mundo. Já pensei em várias coisas. Pra tentar fazer com que isso sumisse. Mas só me olho e consigo sentir raiva por dentro. Uma raiva que cresce enquanto deixo as lágrimas caírem. Quero ser eu mesma. Quero ser eu sem ouvir palavras que cortam.

Peguei uma faca ontem. Tentei me cortar. Ficar relembrando todos os dias as palavras deles ecoando na minha mente estão me deixando louca. Queria uma escapatória. Cheguei a me cortar várias vezes. Aliviava a dor, a dor que eu não podia aguentar. E tudo aquilo que estava guardado dentro do meu coração. Por um momento isso me assustou. Mas depois, passou a virar uma rotina. Isso me tirava do buraco que estava sendo feito dentro de mim a cada dia que passava. De certa forma me consolava. Ainda tenho as cicatrizes. Eu as sinto quando passo os dedos pelo braço. Ninguém vai realmente entender. Meus pai me achariam louca. Minhas amigas me achariam dignas de pena. E pros outros? Não tenho coragem de dizer. Acho que ninguém pode realmente ajudar. Riem de mim enquanto eu passo, me olham torto e fofocam ao redor. Então ouvi minha amiga falando com o garoto que eu mais gosto. Dizendo que eu era apaixonada por ele. E sabe o que ele fez? Riu de mim. E me xingou. Me chamou de nojenta. Como uma palavra pode acabar com uma pessoa? A única coisa que eu consegui fazer foi sair correndo e chorar. O dia todo. Pensei em todas as formas possíveis de sumir. Muitas vezes prefiro viver no mundo da fantasia. Porque no da realidade não posso ser eu mesma. As pessoas não aceitam. Simplesmente não querem. Só sei que hoje, ninguém fala comigo. Sei que teria que contar pra alguém. Mas é vergonhoso demais. Ainda passo as mãos pelas cicatrizes do meu braço, enquanto lembro. Ai pego a faca ou a tesoura outra vez. Só mais um corte. Pra aliviar a dor. Meus pais se separaram. Minha mãe mora longe. Moro com meu pai que nem sequer se importa se estou viva. Ninguém irá sentir a minha falta. Ninguém. E então faço o corte e deixo sangrar.

Esse é um texto fictício criado por mim sobre uma pessoa que sofre bullying.


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